Por: Ten.Cel. Vanderley Manoel de Oliveira
21-08-2008
Em um país marcado pela má
distribuição de renda, onde já é alarmante o número de pessoas acometidas pelas
doenças decorrentes da obesidade mas que, ainda, convive com uma legião de
excluídos sociais condenados a viver à margem da sociedade, sub empregados,
subnutridos, analfabetos funcionais, sem perspectivas presentes e futuras,
chega a ser ofensivo aos dotados de mínima percepção social saber que, apesar
de tudo isso, produz um dos lixos mais ricos do mundo!
Pesquisas realizadas nos aterros
e lixões de várias regiões de nosso país, demonstram que cerca de oitenta por
cento das matérias que são encaminhadas para esses locais não deveriam ter tal
destinação, já que são recicláveis.
No momento em que amplia a
consciência acerca da imensa e insustentável pressão que a sociedade de consumo
exerce sobre os recursos naturais, já estando evidente que o planeta não
suportará por muito tempo essa postura predatória, vislumbra-se a necessidade
da inauguração de novas posturas, revendo-se comportamentos culturalmente
aceitos mas que, diante da realidade instalada, precisam ser objeto de revisão
e transformação.
Compatibilizar políticas capazes
de minimizar a interferência no ambiente natural com políticas de inclusão
social já se mostra um dos grandes desafios a serem enfrentados pela sociedade
e poder público e, a boa gestão do lixo configura-se como um aspecto altamente
relevante neste contexto.
Se imaginarmos que é possível
reduzir em oitenta por cento a demanda por aterros sanitários, já nos vemos
diante de um fato animador pois, além de reduzirmos essa ação antrópica ao
menor nível possível, estaríamos ainda contribuindo para a redução da retirada
de recursos do ambiente natural, já que tais materiais seriam reciclados.
É óbvio que existem problemas a
serem superados:
-
mudança de atitude de todos, aprendendo e praticando
a separação do lixo por categorias distintas (papéis, metais, vidros e
orgânicos);
-
mudança da metodologia de coleta;
-
definição e adequação de local para a recepção
desses materiais, com o propósito de separa-los, acondiciona-los e remetê-los
para as indústrias de reciclagem;
-
capacitação de pessoal para a coleta seletiva,
separação e acondicionamento dos materiais recicláveis.
A presença de pessoas circulando
pelas cidades em busca de materiais recicláveis jamais representou sinônimo de
civilidade, mas sim de exclusão social onde, isoladamente, tais pessoas se
sujeitam a um trabalho desprovido de qualquer garantia e com características
escravas, através do qual conseguem obter algum recurso financeiro que, com
alguma sorte, lhes garante uma alimentação precária, ficando expostos a doenças
de toda natureza e gerando um passivo social, também, no campo da saúde.
Tornam-se alvo fácil para o tráfico, prostituição (até mesmo infantil) enfim,
vivem seus dias numa tênue divisa entre a sociedade que lhes olha torcendo o
nariz e um ambiente de crimes, vícios e promiscuidades que lhes abre os braços.
Finalmente temos os ingredientes para nos sentirmos inseguros e concluímos, inocentemente,
que a solução é mais polícia nas ruas, muros cada vez mais altos, alarmes,
câmaras de vigilância, armas!
Diante dessa demanda, a qual é
de todos, percebe-se que a parceria entre a sociedade e o poder público pode
gerar resultados altamente positivos:
-
recipientes para a coleta seletiva poderiam ser
incorporados aos equipamentos presentes em todos os lares, mediante parceria do
comércio, indústria e outras instituições presentes nos municípios, com direito
a espaço para propaganda nesses mesmos recipientes, inserindo-as no universo
das instituições que praticam atos concretos de responsabilidade
sócio-ambiental, vendendo-os a preço de custo nos bairros onde é evidente a
existência de condição econômica para sua aquisição, distribuindo-os gratuitamente aos mais pobres
-
cadastramento dos coletores de materiais
recicláveis, organizando-os e constituindo cooperativa;
-
adequação dos veículos coletores para recolhimento
dos materiais descartados pela sociedade;
-
mediante lei municipal normatizar a coleta seletiva
de lixo, tornando a separação por tipo de materiais obrigatória em todo o
município com previsão, inclusive, de multa para aqueles que não se enquadrarem
nesta nova postura, bem como incentivo aos cidadãos que colaborarem ( desconto
no IPTU, por exemplo).
Mesmo o
lixo orgânico, se submetido a processamento adequado, pode transformar-se em
adubo orgânico. Para a maioria dos municípios, pensar na instalação de uma
usina de compostagem de lixo orgânico é economicamente inviável mas, quando se
pensa em um consórcio de municípios, também esta possibilidade se torna
possível, surgindo daí mais uma fonte de redução da pressão sobre os recursos
naturais, redução dos níveis de poluição de solo, das águas subterrâneas e dos
rios, poluição atmosférica e poluição visual, além de gerar empregos.
Neste que é mais um ano político
na vida dos cidadãos, precisamos estar alerta aos candidatos a cargos eletivos
que estarão em disputa, analisando suas propostas e o nível de responsabilidade
que demonstram para com a sociedade e o ambiente calando, de uma vez por todas,
aqueles movidos por patrocínio de churrascos, fornecimento de jogos de camisas
para times de futebol, fisiologistas, superfaturamentos etc, malfadadas versões
modernas do voto de cabresto, remanescentes de um passado sombrio que prosperou
às custas de “favores” pueris, mantendo o povo abastecido de informações quase
sempre manipuladas, mas afastando-o do conhecimento.
Lamentavelmente muitas cidades
ainda não possuem, sequer, aterros sanitários para deposição de lixo, o qual é
destinado aos lixões, grave ameaça à salubridade humana e ao ambiente.
É fato inconteste que essa
questão, cedo ou tarde, se transformará em aspecto crucial para a sociedade,
havendo necessidade da deflagração urgente de tratativas objetivas em busca de
soluções adequadas.
Com a palavra (assim espero!),
nossos futuros administradores.
VANDERLEI MANOEL DE OLIVEIRA Tenente Coronel de Polícia Militar Comandante do 1º Batalhão de
Polícia Ambiental
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